Série "Porta Aberta" traz entrevistas com personalidades do esporte e o ex-carateca Douglas Brose repassa sua história
- Instituto Douglas Brose

- 10 de ago.
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Fonte: ND+ - Reporter: Jorge Jr. - Edição: Márcia Becker

Douglas Brose no quadro Porta Aberta desta semanaFoto: Rodrigo Polidoro/ND Mais
Imagine ser comparado a Pelé na sua modalidade? Não é para qualquer um e representa motivo de orgulho. Douglas Brose, de Florianópolis, hoje está aposentado das competições de caratê – é tricampeão mundial e campeão pan-americano -, mas segue construindo o legado. Ao trocar festas, amigos e família em troca da carreira, escolheu a renúncia da adolescência pela disciplina para se tornar o maior nome da modalidade no Brasil.
Em sua casa no Parque São Jorge, onde recebeu a reportagem do portal ND Mais para esta entrevista da série Porta Aberta, Brose contou sobre como conheceu a esposa, o nascimento do filho, as escolhas difíceis para ser referência e também celebrou o acerto para ser coordenador técnico da seleção de caratê do Panamá, para onde viaja mensalmente para estruturar o esporte no país de olho nas Olimpíadas. Aliás, a principal dor da carreira foi não ter representado o Brasil nos Jogos Olímpicos. Aposentado desde 2024, aos 40 anos segue ativo na missão de fazer o esporte crescer.
Como o caratê entra na tua vida?
O caratê entra na minha vida aos 7, 8 anos. Fiz umas aulas experimentais aqui na Astel e depois o professor Eduardo, de São Paulo, chegou no Colégio de Tradição e perguntou se alguém fazia caratê na sala, lembro até hoje. Levantei a mão porque já tinha feito algumas aulas experimentais e a partir dali comecei a treinar e ele era muito disciplinador, isso me motivou e acabei ficando na modalidade.
No início das competições dava para saber que tinhas algum diferencial?
Quando entrei para a Seleção Brasileira em 2001 falei: ‘cara, eu vou fazer disso a minha vida. Eu vou viver disso, eu vou trabalhar com isso’. Foi uma briga, logicamente, até convencer pai, mãe e todo mundo ainda mais um esporte que não tem tanta visibilidade, mas a partir dali com 14 anos já estava essa certeza.
Você se lembra do primeiro campeonato?
Lembro, foi um campeonato aqui na Astel, interclubes. Fui campeão tanto no kata quanto no kumite. Inclusive tenho a medalha, deve estar por aí, e quando senti aquele gostinho de subir no pódio, de ter essa primeira medalha, foi algo viciante.
Nessa fase da vida, adolescente praticando o caratê, tive de abrir mão de muita coisa?
Abri mão de muita coisa, principalmente no momento que decidi me profissionalizar. Eu tinha que passar às vezes muito tempo fora enquanto os meus amigos iam sair, iam viajar, iam fazer festa, eu estava treinando porque no outro dia tinha competição. Durante a pandemia dei uma entrevista e me perguntaram como é que estava sendo para mim o isolamento social. Até brinquei com o repórter, já que estava isolado socialmente há mais de 20 anos. Acho que quando você tem um objetivo, como eu tinha de ser campeão mundial e representar o meu país, nada mais importa e você acaba só focando nisso.
Em algum momento deu alguma margem para arrependimento?
Não, sempre valeu a pena. Arrependimentos eu tenho de outras coisas, de outras formas que eu lidei com o meu corpo, que eu poderia ter tido mais paciência, mas nunca passou arrependimento de será que eu estou fazendo a coisa certa. Quando ninguém acreditava, eu acreditava que eu poderia fazer do caratê a minha vida, o meu ganha-pão, tudo na minha vida foi construído em volta do caratê, desde a minha família, os meus estudos, a minha profissão, a minha empresa.
Faltou alguma coisa na carreira?
Faltou os Jogos Olímpicos, hoje a minha briga é tentar fazer com que o caratê volte para os Jogos Olímpicos, já que foi uma passagem muito rápida só na Olimpíada de Tóquio. Tive alguns contratempos nesse meio de caminho, lesões e tal, acabei ficando por pouquinho para ir para os Jogos Olímpicos. Hoje a minha luta é fora do tatame tentando mostrar a importância de ter uma modalidade como essa dentro dos Jogos Olímpicos. Como parte da comissão mundial de atletas, agora também como atleta modelo dos Jogos Olímpicos de Dakar da Juventude, estou fazendo essa força gigantesca para incluir o caratê novamente.
Não ter ido para os Jogos de Tóquio te frustrou?
Muito, acho que é a maior frustração que tenho na minha vida, foi um baque porque eu era o primeiro do ranking mundial. Só que quando começou o ranking olímpico eu tive uma lesão muito grave de tendão de Aquiles, o rompimento dele. Isso me tirou literalmente seis meses de competição. Voltei a competir com quatro meses, os médicos não queriam, mas eu falei que ia voltar. Não era questão de poder, era a minha vida. Era a oportunidade que eu tinha, queriam que eu fizesse uma recuperação completa de 12 meses, mas eu não tinha esse tempo. Fazia fisioterapia três vezes por dia, fazia de tudo. Cheguei para os médicos e fisioterapeutas e falei: “Se eu tiver que entregar o meu corpo, é para isso que eu vou entregar”. Hoje vejo de outra maneira, foi um aprendizado muito grande também e pude viver um ciclo olímpico.
Cada conquista é especial, mas tem alguma favorita?
Cada conquista tem uma história, umas com lesões, outras com falta de apoio e recurso e ainda ia lá e ganhava. O meu primeiro Campeonato Mundial foi uma medalha muito importante porque quebrei praticamente um paradigma de botar um brasileiro no topo do mundo, desde 1972 que não tinha. A medalha dos Jogos Pan-Americanos de 2015 também foi uma medalha muito importante para mim.
Em um esporte com menor visibilidade, como foi para conseguir patrocínios?
Quando comecei a ter resultados tive apoio do Fundesporte, um antigo programa do Governo do Estado. Lembro que ficava horas e horas na secretaria esperando para falar com o secretário, gerentes de esporte, porque ainda não me conheciam para mostrar o meu projeto. Quando decidiram investir, disputei um campeonato e conquistei o título. A primeira coisa que fiz ao voltar foi ir lá agradecer o apoio. Queria mostrar não a prestação de contas, mas a gratidão e o resultado. Além disso, vendia bolo na escola para pagar as viagens, vendia materiais de treino que comprava fora do Brasil e revendia no Facebook. Usava todo esse dinheiro para investir na minha carreira.
Como você acredita que pode continuar ajudando o esporte?
Estou formalizando o Instituto Douglas Brose, a ideia é que eu consiga apoiar mais ainda futuras gerações de atletas, principalmente na transição da iniciação para o rendimento e entrar na seleção brasileira. Quero com o meu instituto formar uma equipe e conseguir apoiar atletas de Santa Catarina e quem sabe do Brasil para fazer um trabalho para que o caratê faça diferença na vida desses atletas.
A sua esposa, Lucélia Brose, também é uma multicampeã do caratê. Como vocês se conheceram?
Quando eu digo que o caratê construiu toda a minha vida é literalmente. A gente se conheceu em competições, fomos contratados pela mesma equipe para lutar por Paulínia (SP) e nesse mesmo período e durante treinos e competições a gente se conheceu. Ela já era capitã da seleção brasileira e eu estava entrando com 18 anos. Ali a gente se encontrou não só o sentimento que a gente tinha um pelo outro, mas o sonho que a gente tinha em comum de levar o nosso esporte pro mundo.
Ele acabou sendo sua treinadora também?
Nós dois formamos uma equipe muito legal. Treinei com ela a minha vida inteira, juntos todos os dias, e para mim não tinha diferença se ela era mulher ou se ela era de uma categoria diferente da minha. Uma coisa que a gente nunca deixou de fazer foi treinar. A gente podia estar sem se falar, a gente não falava, mas ia treinar. O objetivo e o amor pelo esporte sobrepunham a nossa relação às vezes.
O caratê te deu família, carreira, mas o que ele te tirou?
O esporte me tirou a oportunidade de ter criado relações mais fortes talvez com com amigos. No momento que você se dedica ao esporte da maneira que eu praticamente me dediquei, você abre mão da sua relação com outras pessoas. Como eu também me relacionei muito cedo com a Lucélia, então nós formamos um time que era eu e ela e acabou. Acho que eu ganhei muito mais.
Como foi ser pai no momento em que a carreira estava no auge?
O Daniel veio em 2014 e, por incrível que pareça, eu nunca troquei uma fralda do Daniel. A Lu olhou para mim e falou o seguinte: ‘Ó, tu vai dormir e eu cuido. Só que tu vai ganhar”. Então, eu dormia, eu não tinha que acordar nenhuma noite. Ele tem 12 anos hoje eu passei quase cinco anos fora, se for juntar todas as as minhas viagens de carreira. No começo ele viajava junto, com quatro meses ele estava na Alemanha com a gente. Eu e a Lu temos uma parceria muito legal. Lógico que abri mão de estar com o meu filho durante muito tempo, mas acho que hoje ele entende. Muitas vezes ele acompanhou junto ou acompanhando pela internet. Acredito que ele sinta muito orgulho também. O Daniel treina hoje caratê de maneira logicamente lúdica.
Ele sabe do teu tamanho dentro do esporte?
Acho que ele sabe um pouco, pois já esteve em muitos eventos e alguns com um pouco do assédio que eu tenho de outros atletas, de autógrafos, fotos e vídeos nas redes sociais Mas sendo bem sincero, às vezes nem eu tenho noção do tamanho que tenho, até a própria Lucélia fala. Logicamente que recebo alguns convites, que nem esse agora para ser atleta modelo dos Jogos Olímpicos da Juventude. Isso me faz entender que tenho que ajudar cada vez mais o caratê.
E como é receber o assédio por ser um grande nome do esporte?
Toda vez me impressiona, seja com crianças, adolescentes e adultos também. Me pega bastante quando vejo crianças chorando querendo autógrafo ou foto dizendo que assiste meus vídeos. Tem vezes que quase choro junto porque me vejo nessas crianças como eu era antes. Sempre em eventos abertos tento ficar e atender até o último menino ou menina que está ali, porque sei que às vezes uma palavra de incentivo e um abraço pode fazer a diferença.
É como você lidava com as derrotas quando competia?
Eu lidava muito mal com a derrota, muito mal. Nunca gostei de perder, até porque a minha maior motivação eram as minhas derrotas, porque eu não gostava de perder e ainda não gosto. Tem vídeo da final do Campeonato Mundial 2012 e perdi nos últimos segundos. Demorei quase dois anos para conseguir assistir a luta no YouTube. Eu assistia até um pedaço onde eu estava ganhando e depois quando eu começava a perder pausava o YouTube e desligava o telefone. Aquilo me machucava mesmo, me doía, aquilo não era uma derrota para mim, era algo que me doía e me fazia ir para o treino. Eu pegava os pesos e dizia ‘agora tu vai ver, peso’, e assim fazia com os parceiros de treino também. A derrota sempre me motivava, mas eu lidava mal, chorava, ficava triste, entrava em crise de depressão, mas nunca deixei de treinar. Hoje, com um pouco mais maduro, eu trabalharia melhor para isso.
Como é o dia seguinte após você se aposentar?
Estendi a carreira até 2024 e o dia seguinte foi muito estranho. A minha vida era programada para treinar e competir. Então, eu não comia porque eu tinha que comer, comia porque tinha que treinar. Eu não acordava às seis da manhã porque gostava, mas era porque precisava. Era uma rotina voltada ao alto rendimento. No momento que você tira isso, você acorda às seis da manhã e fala: “Vou correr”. Aí ele fala assim: “Mas para que que eu vou correr?”. Tentei fazer um desmame, ainda treino regularmente todos os dias, mas não com a mesma intensidade, não com o mesmo volume, mas ainda mantenho praticamente todas as rotinas saudáveis que eu já tinha.
O esporte de alto rendimento tem muita cobrança e renúncia. A dor foi tua companheira ou foi tua inimiga nesse processo todo?
Olha, em muitos momentos a dor foi minha companheira. Lembro que durante as lesões meus fisioterapeutas e meus preparadores físicos sempre me segurando e eu escondido ia fazer outras coisas. Voltava para casa depois de horas de fisioterapia, ia subir no meu apartamento em vez de ir de elevador ia de escada. Sempre fui meio meio maluco de fazer essas coisas, mas é que eu sempre tentei levar a dor como a minha motivadora. Quanto mais eu sentia a dor, mais às vezes eu queria. Algumas vezes passei do ponto, mas outras fui obrigado a fazer isso. Era o meu sonho, a oportunidade que eu tinha que não ia perder e eu estava disposto a entregar o meu corpo para aquilo.
Qual é o legado que tens deixado para o caratê?
O Brasil estava um bom tempo sem expressão no esporte, a América em si nunca teve grandes campeões. No momento que eu provo que que não tem fronteira, não tem Europa, não tem Ásia, tem você querer. Não importa se você está no Brasil e está acontecendo tudo lá na Europa, o maior legado que posso ter deixado é de que é possível sim. Se você trabalhar, se você treinar, se você se dedicar, se você quiser entregar a sua vida para aquilo, como eu fiz literalmente, é possível. Eu treinava na garagem da minha casa, então eu saí da garagem da minha casa para o topo do mundo.


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